A felicidade tem idade?

A FELICIDADE TEM IDADE?
A felicidade é um dos objetivos mais procurados pelo ser humano, ao longo da vida, passamos por diferentes fases, cada uma marcada por experiências, desafios e expectativas próprias. Na infância, a felicidade está muitas vezes associada à brincadeira, à descoberta e ao carinho da família. Durante a adolescência, passa a relacionar-se com as amizades, a construção da identidade e a procura de independência. Já na idade adulta, fatores como a estabilidade profissional, os relacionamentos afetivos e a concretização de objetivos ganham maior importância. Por sua vez, na velhice, muitas pessoas encontram felicidade nas memórias construídas, nos laços familiares e na valorização dos pequenos momentos do quotidiano.
Perante estas diferenças, surge uma questão interessante: será que existe uma idade mais feliz do que as outras? Ou será que a felicidade não depende da idade, mas sim da forma como cada pessoa encara os desafios e as oportunidades de cada etapa da vida?
Neste artigo, refletiremos sobre a relação entre a felicidade e a idade, procurando compreender se existe uma fase da vida em que somos mais felizes ou se a felicidade pode ser encontrada em qualquer momento da nossa existência.
Estar (ou ser) feliz
Estar feliz é sentir alegria, satisfação e bem-estar num determinado momento da vida. Muitas vezes, a felicidade surge através de pequenas coisas, como passar tempo com a família, alcançar um objetivo ou apreciar momentos simples do dia a dia.
Ser feliz, por outro lado, refere-se a uma atitude mais duradoura perante a vida. Não significa estar sempre alegre, mas sim conseguir encontrar significado, equilíbrio e gratidão, mesmo perante dificuldades.
Assim, estar feliz é um estado passageiro, enquanto ser feliz é uma forma de viver que se constrói ao longo do tempo através das nossas escolhas, relações e valores.
Atualmente, a Humanidade enfrenta inúmeros desafios coletivos, desde as alterações climáticas e os conflitos internacionais até às desigualdades sociais e às rápidas transformações tecnológicas. Paralelamente, a nível individual, as pessoas lidam com exigências cada vez maiores relacionadas com o trabalho, os estudos, as relações interpessoais e a constante pressão para alcançar o sucesso. Neste contexto de mudança e incerteza, nunca se refletiu tanto sobre aquilo que verdadeiramente proporciona felicidade a cada indivíduo.
Esta procura torna-se ainda mais relevante numa época em que a esperança média de vida tem aumentado significativamente. Graças aos avanços da medicina, da ciência e das condições de vida, as pessoas vivem mais anos do que as gerações anteriores. A longevidade trouxe consigo a necessidade de repensar o conceito de felicidade ao longo de todo o ciclo de vida, valorizando não apenas a duração da existência, mas também o bem-estar físico, emocional e social. Assim, compreender o que nos faz felizes assume uma importância crescente, pois uma vida mais longa só ganha verdadeiro significado quando é acompanhada por um sentimento de realização e plenitude.
Curva da felicidade
O conceito da denominada curva da felicidade ganhou notoriedade através do trabalho de vários investigadores, destacando-se particularmente os economistas David G. Blanchflower e Andrew J. Oswald. Com base na análise de extensas bases de dados internacionais, estes autores observaram que os níveis de satisfação com a vida tendem a seguir uma trajetória em forma de “U” ao longo do ciclo de vida. De uma forma geral, a felicidade apresenta valores mais elevados durante a juventude, sofre um declínio gradual ao longo da meia-idade e volta a aumentar nas idades mais avançadas. Em concreto verifica-se que:
As pessoas mais felizes são as mais jovens e as mais velhas;
Os mais velhos, se tiverem uma boa saúde, estabilidade financeira e segurança afetiva, podem sentir-se tão felizes quanto os mais jovens;
40, 45 anos é a idade menos feliz pelas responsabilidades, encargos na vida;
Ou seja, a felicidade tende a aumentar novamente nas idades mais avançadas, quando muitas pessoas desenvolvem uma maior aceitação de si próprias, redefinem prioridades e valorizam mais as relações e os momentos do quotidiano. Além disso, a curva da felicidade sugere que o bem-estar não depende apenas da idade, mas também da forma como cada etapa da vida é vivida e interpretada. Assim, a felicidade revela-se um processo dinâmico, influenciado pelas experiências, expectativas e capacidade de adaptação ao longo do tempo. Daí a importância de sabermos valorizar as nossas experiências individuais e priorizações que fazemos ao longo da vida.
Qualidade de vida e longevidade
Existem cerca de 630 mil pessoas com 100 anos ou mais no planeta, sendo que a grande maioria se concentra em apenas 10 países. Embora os centenários sejam raros (cerca de 1 em cada 15.000 pessoas), a população idosa global acelera rapidamente, prevendo-se que o número de pessoas com 65 anos ou mais duplique até 2050. É um facto que estamos a entrar numa nova etapa da história da humanidade: a Era da Longevidade. O aumento da esperança de vida e a melhoria das condições de saúde estão a dar origem a uma realidade sem precedentes, em que um número crescente de pessoas permanece ativo, autónomo e socialmente relevante durante mais tempo.
A construção deste novo paradigma implicará profundas adaptações culturais, económicas e sociais. Investir na qualidade de vida, na saúde, na aprendizagem contínua e na inclusão das gerações mais velhas será essencial para transformar a longevidade numa conquista coletiva. E isso representa também um desafio grande em como conciliar o mundo exterior e mundo interior.
Na verdade, cultivar momentos de felicidade exige um olhar mais atento para aquilo que já está presente. Também é importante criar espaço para atividades que nos dão prazer e significado. A felicidade não é um destino final, mas uma prática contínua. Ela cresce quando aprendemos a estar presentes, a valorizar o que temos e a construir pontos de interesse como por exemplo:
Ter uma razão para acordar todos os dias (propósito);
Criar um círculo de amigos próximos (comunidade);
Fazer escolhas (aprender a dizer não, priorizar);
Rir de si mesmo (autoestima sadia);
Planificação/concretização (planos de vivencia da vida);
Autoconfiança (auto-liderança);
Gratidão (sentimentos mais elevados, espiritualidade);
Quando encontramos significado naquilo que fazemos, tornamo-nos mais capazes de enfrentar os desafios com resiliência e de encarar o futuro com confiança, esperança e motivação. Contudo, a felicidade não é apenas uma construção individual; ela desenvolve-se também através das relações humanas, da partilha e do sentido de pertença a uma comunidade. É na convivência com os outros que aprendemos, crescemos e consolidamos valores e comportamentos saudáveis que enriquecem a nossa experiência de vida.
No processo de envelhecimento, o acumular de experiências, conhecimentos e aprendizagens pode proporcionar uma compreensão mais ampla e integrada da vida. No entanto, essa visão de conjunto não surge automaticamente com a idade; exige uma atitude de abertura à reflexão, à aprendizagem contínua e à capacidade de atribuir significado às vivências acumuladas. Quando nos disponibilizamos para esse processo, o envelhecimento pode tornar-se uma oportunidade de crescimento, sabedoria e desenvolvimento pessoal.
Modelo pró-felicidade para uma longevidade plena
Sem ter como objetivo colocar conceitos em caixas podemos, contudo, extrapolar algumas caraterísticas e qualidades a desenvolver num processo de longevidade mais plena e lucida, em que a ação de cada um pode ter um papel preponderante no processo individual de felicidade. Assim esse modelo de longevo poderá ser exemplo “vivo” de atributos como:
Gestor produtivo de vida: rentabilização da rotina semanal em termos da saúde mental, física e emocional;
Aprendiz continuo: abertura ao novo;
Longevidade ativa: rotinas sadias diárias;
Felicidade existencial: escuta ativa;
Presença e intervenção: papel na comunidade;
Valor da história pessoal: colocar em ação a experiência;
Projeto Coaching da Vida
Em 2021, desenvolvi o projeto Coaching da Vida com o propósito de promover o empoderamento pessoal na fase da maioridade, incentivar o envelhecimento ativo e contribuir para uma longevidade mais consciente, significativa e plena. A iniciativa foi estruturada em torno de quatro dimensões fundamentais do bem-estar humano — física, mental, psicológica e existencial — reconhecendo que a qualidade de vida resulta do equilíbrio entre estas diferentes esferas da experiência humana.
O principal objetivo foi estimular a reflexão sobre a vivência individual de cada participante e a forma como essa experiência se reflete na sua qualidade de vida, favorecendo um estado de maior realização, equilíbrio e felicidade.
Em cada sessão, foi abordado um tema específico, posteriormente debatido em grupo, proporcionando momentos de partilha genuína e enriquecedora. Estas experiências permitiram-me constatar a importância de criar espaços seguros e acolhedores, onde as pessoas se sintam confortáveis para expressar ideias, trocar perspetivas e, sobretudo, partilhar as suas experiências de vida.
Todos nós possuímos um vasto património de saberes, experiências e aprendizagens — aquilo a que gosto de chamar o nosso “baú do conhecimento”. Para alcançar a felicidade existencial, entendida de acordo com os valores e a visão de vida de cada indivíduo, é fundamental reconhecer, valorizar e respeitar a singularidade de cada pessoa. Neste processo, assume particular relevância o desenvolvimento do autoconhecimento, uma ferramenta essencial para a compreensão de si próprio, das suas necessidades, capacidades e propósitos. Mais do que uma competência a ser trabalhada apenas em fases mais avançadas da vida, o autoconhecimento deve ser estimulado e cultivado de forma contínua ao longo de todo o percurso de vida, contribuindo para um maior bem-estar, realização pessoal e sentido de propósito.
Considerações finais
Uma vida plenamente vivida, independentemente da idade, é aquela que apresenta maior potencial para gerar realização e bem-estar. A felicidade é, acima de tudo, uma experiência subjetiva e um estado interior que não depende exclusivamente da idade, mas da forma como cada pessoa interpreta e vive a sua própria realidade. Existem indivíduos que, apesar das adversidades e desafios do quotidiano, se consideram felizes e conseguem transmitir essa atitude positiva aos que os rodeiam. Neste sentido, torna-se fundamental promover uma mudança de paradigma na sociedade, desconstruindo a ideia de que a felicidade pertence apenas à juventude ou de que existe um modelo único para ser feliz. Essa é a responsabilidade de cada um de nós independente de qualquer situação externa.
Sónia Ferreira
Coach da Vida e Longevidade
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