GERAS
GERAS

Todos queremos ter o privilégio de envelhecer

Todos queremos ter o privilégio de envelhecer
Foto: Divulgação
Sem Comentários

Vivemos num mundo complexo e imprevisível, numa sociedade em constante mudança e a um ritmo acelerado, marcado pelo envelhecimento populacional, hoje um fenómeno global. Portugal é o quarto país mais envelhecido do mundo. A consequência do aumento do envelhecimento da população, seguido do aumento da dependência dos idosos inativos, pode originar graves problemas económicos. No entanto, é uma excelente oportunidade para se repensar no papel que os idosos têm na sociedade e reconhecer os seus direitos em todas as idades: direito à independência, à assistência, à sexualidade, à cultura, à alimentação, à saúde, ao transporte, à família e à segurança.

O papel do idoso tem mudado ao longo dos tempos, sendo necessário proporcionar-lhe uma maior qualidade de vida em todos os aspetos, apesar de muitas vezes ser esquecido pela sociedade. Ser idoso na nossa sociedade nem sempre é fácil. À medida que envelhecemos, surgem muitos preconceitos em relação aos mais velhos, porque já não conseguimos fazer determinadas coisas, porque não nos adaptamos às mudanças, às novidades, porque temos receio de nos lançar em determinadas aventuras ou porque não somos criativos. Os cabelos brancos, as rugas, alguma fragilidade, lentidão ou até perda de audição são, muitas vezes, desafios que o idoso tem de enfrentar no seu dia a dia.

Envelhecer não significa perder o valor. Pode já não existir a força física da juventude, mas existe algo mais valioso que a idade traz consigo: um mundo de experiências e de sabedoria. Os mais velhos transmitem valores, ajudam a preservar tradições e ensinamentos que fazem parte da nossa identidade. A sociedade estabelece etapas na idade, mas nós podemos contrariá-las e mostrar que o facto de sermos considerados velhos nos confere muita utilidade, que é apenas mais uma etapa da vida. Que não temos medo de nos lançar em determinadas aventuras, de continuarmos a ser criativos e competentes.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) divide o envelhecimento em diferentes estádios:

  • Meia-idade: 45 – 59 anos
  • Idoso: 60 – 74 anos
  • Ancião: 75 – 90 anos
  • Velhice extrema: 90 anos ou mais

A minha jornada: desafiando preconceitos e celebrando a idade ativa

O meu envelhecimento começou no dia em que nasci. No entanto, para a sociedade, a minha velhice começou a partir do momento em que se considerou que eu já não seria produtiva. Pela OMS, sou uma anciã, com a idade cronológica de 79 anos. Este número não define quem eu sou. O meu corpo pode ter perdido o frescor de outrora, mas trago por dentro a vivacidade da menina que fui. A frase “já não tens idade para fazer isso” não cabe em mim.

Sigo o meu caminho, sei o que quero ser e não me comporto de acordo com a minha idade. Acumulei e continuo a acumular histórias e experiências de vida. Ainda tenho sonhos, projetos. Vejo que envelheci, mas não adquiri uma imagem negativa da minha pessoa, não perdi a autoestima. Após a minha aposentação, não me isolei. Fugi das atitudes negativas, não me afastei nem tomei atitudes defensivas em relação aos mais novos. Aceitei as mudanças e adaptei-me a novos estilos de vida. Cuido da minha imagem, visto-me de alegria, para poder sentir a intensidade dos momentos felizes de cada dia.

A idade, enquanto a saúde o permitir, não será para mim um empecilho em continuar a fazer o que me dá satisfação e em querer viver de forma consciente e com sentido todas as fases da minha vida. Envelhecer não é parar. É continuar a viver, a aprender e a partilhar. E, acima de tudo, a sorrir.

Procuro dar intensidade à minha vida. Derrubar o mito de que “velhos são os trapos”. Infelizmente, na nossa sociedade não se dá o devido valor aos mais velhos. Nos empregos, somos preteridos pelos mais jovens, somos discriminados, causando em muitos de nós o sentimento de inutilidade, de sofrimento psicológico, levando ao isolamento, à solidão e até mesmo ao abandono. Quem disse que os mais velhos já não servem?

Há tantos idosos proativos, com vitalidade, jovialidade e não são reconhecidos? Há que quebrar o preconceito do idadismo. A idade é apenas um número. Somos merecedores de respeito, de aceitação e de inclusão. Todos temos sentimentos, vivências e valores. Tudo o que vivemos não fica para trás, transforma-se em sabedoria que nos acompanha nos passos seguintes do percurso da nossa vida. Por isso, gosto de perder algum tempo com as minhas memórias, com as minhas experiências boas, ou menos boas, porque acredito que elas me dão ferramentas para enfrentar todas as etapas da vida.

Penso no que fiz ontem, no que faço hoje. E o amanhã? Ninguém sabe. Vou vivendo cada capítulo da minha história, aprendendo com as experiências e dando sentido ao caminho que ainda continuo a construir.

Não tenho o culto eterno da juventude, mas não quero ser considerada velha só porque passei dos 70. Procuro fugir ao ócio: estudo, pinto, leio, rodeio-me da família e de amigos, passeio, faço bricolagens, viajo, tiro fotografias de tudo, faço teatro, novelas, publicidade, até faço passagens de modelos. Procuro manter a saúde, através de uma alimentação razoavelmente equilibrada e faço idas frequentes ao médico para os exames necessários para controlo.

Preocupo-me também em cuidar da minha autoimagem. Arranjo-me para mim, para me sentir bem. Em suma: estar satisfeita com a vida e vivê-la de forma positiva, mesmo quando surgem a apatia, a melancolia ou a solidão. Sorrio. Sorrio sozinha, para as flores, para os animais e digo, com toda a convicção: gosto de viver. Esta é a minha postura para envelhecer de forma saudável e ativa.

O poder da idade na construção de um futuro ativo

Envelhecer não tem de ser um problema, apenas um processo inevitável, que deve ser vivido de forma saudável e autónoma o mais tempo possível e valorizado por toda a sociedade. O estilo de vida que escolhemos tem muita importância, pois reflete, muitas vezes, aquilo que dá sentido à nossa existência. As rotinas, os interesses que cultivamos, a forma como nos relacionamos com os outros e com o mundo revelam, muitas vezes, aquilo que valorizamos e o que desejamos transmitir.

Viver de forma ativa, curiosa, aberta aos outros, esse estilo de vida transforma-se num propósito, não apenas para nós, mas também para quem nos rodeia. Por passar esta imagem a milhares de amigos que me seguem nas redes sociais e aos mais próximos que lidam comigo no dia a dia, consideram-me, na linguagem moderna, “influencer sénior”, mas a capacidade de influenciar, no meu caso, esteve sempre presente, de forma natural, ligada à minha profissão de professora. Durante muitos anos, a sala de aula foi um espaço de partilha, de diálogo, de construção de pensamento, onde influenciar significava inspirar, orientar e despertar curiosidade.

Com o término da minha carreira profissional essa dimensão não desapareceu. Pelo contrário, encontrou novas formas de se expressar. Hoje, através das redes sociais e de outras atividades, continuo a partilhar experiências, ideias e perspetivas, talvez agora com mais liberdade e com o olhar de quem percorreu um longo caminho.

Por isso, independentemente da idade, o nosso estilo de vida torna-se uma mensagem silenciosa para os outros, tendo o propósito de continuar a viver de forma consciente e com sentido, em todas as fases da vida. No fundo, o mais importante não é a IDADE que temos, mas a forma como escolhemos continuar presentes na vida. Assim, como professora, o que a vida me ensinou é que nunca deixamos verdadeiramente de ensinar e de aprender, apenas mudamos os lugares onde costumamos fazê-lo.

Temos de dar sentido à vida, não esperar apenas o acumular dos anos. Manter a vontade de aprender, de partilhar com os outros aquilo que a experiência nos ensinou, porque em cada fase da vida surgem novas prioridades, novos desafios e novas formas de contribuir. O envelhecimento ativo exige que os seniores se envolvam na vida social, económica, cultural, civil, religiosa e espiritual.

Para tal, é necessário que sejam garantidas oportunidades de saúde e segurança que melhorem a qualidade de vida e o bem-estar social e mental ao longo da vida, permitindo que os idosos participem na sociedade e possam exercer atividades remuneradas. O envelhecimento ativo constitui um desafio para a sociedade, para o sistema de saúde, para o mercado de trabalho, para a educação, pois só assim será possível reduzir mortes prematuras, diminuir incapacidades e prevenir doenças crónicas.

Como influencer, procuro ajudar quem tem a autoestima muito em baixo, mostrando-lhes o que podem fazer para melhorar, nomeadamente:

  • Reconhecer o seu valor;
  • Elevar a sua autoestima;
  • Cuidar da aparência;
  • Reclamar menos e agradecer mais;
  • Não viver por viver, mas dar sentido à vida;
  • Deixar de lado a apatia e, se se sentir triste, dar um passeio;
  • Ter interações com colegas, amigos e familiares;
  • Vestir-se bem e cuidar de si;
  • Continuar a sonhar;
  • Fazer alguns projetos;
  • Sair do ócio, da melancolia, da apatia, dos medos e da solidão;
  • Aprender coisas novas;
  • Pensar que temos ainda muito para dar;
  • Manter a saúde;
  • Estar satisfeito com a vida;
  • Vivê-la de forma positiva;
  • Ter amigos.

Muito importante lembrar que todos nós temos valor e capacidade para melhorar a nossa vida. A autoestima constrói-se todos os dias através de pequenas atitudes, cuidando de nós próprios, mantendo pensamentos positivos e valorizando quem somos. A nossa baixa autoestima surge quando nos comparamos demasiado aos outros, ou damos demasiada importância às críticas do que às nossas conquistas. Eu aprendi a valorizar cada pequeno progresso da minha vida e continuo a lutar pelos meus objetivos. Não desisti de mim.

Sorrir, sorrir sempre… porque a idade é apenas um número.

Laura Braz

Comentários

Para deixar um comentário, inicie sessão.

A carregar comentários…

Newsletter

Receba os nossos artigos e novidades directamente no seu email.

Conheça os melhores produtos e serviços para a longevidade

Artigos relacionados

A inclusão começa nas pequenas atitudes e no espaço em que vivemos
Colunistas

A inclusão começa nas pequenas atitudes e no espaço em que vivemos

Precisamos repensar a organização social e a arquitetura de nossa cidades, seja no meio urbano ou ruralEstamos em busca de cidades e ambientes amigos das pessoas idosas, espaços públicos acolhedores e seguros, que possibilitem a convivência, a troca de experiências, o acesso a novos conhecimentos para todos, em todas as idades, sem discriminação ou preconceito.Repensando…

04 Junho de 2026
Quando educar para uma longevidade sustentável, com qualidade de vida?
Colunistas

Quando educar para uma longevidade sustentável, com qualidade de vida?

A resposta que tenho construído ao longo da vida é: desde sempre.Fui educado para estudar, trabalhar, produzir, conquistar. Mas não fui orientado a cuidar da minha longevidade. Só depois de muitos anos percebi que viver mais — e melhor — exige preparo, escolhas conscientes e, acima de tudo, educação. Educação para o corpo, para a…

28 Maio de 2026
GERAS
Fale connosco